
Eurídice e Guida
Entre Eurídice e Guida, duas irmãs separadas por um equívoco, o filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" nos conduz a pensar sobre o apagamento, o desejo e as vidas que poderiam ter sido.
VOZMULHERES
Marcia Henrique do Nascimento
“A vida invisível de Eurídice Gusmão”, é um filme brasileiro, dirigido por Karim Aïnouz (cineasta que teve no espetacular “Madame Satã” sua estreia na direção). É uma adaptação cinematográfica do romance homônimo de Martha Batalha, publicado em 2016. Um daqueles casos em que o nome da obra diz tudo.
A história, ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1950, poderia soar datada, mas o apagamento sistemático e incisivo ao qual as irmãs Eurídice e Guida são submetidas permanece extremamente atual. A invisibilidade é um tipo de violência imposta ao sujeito e que se utiliza de diferentes mecanismos para deslegitimar a expressão da subjetividade.
Aqui, temos como ponto de partida uma separação brutal, nascida do equívoco, que ao fim paralisa e destrói a relação baseada no afeto e amparo mútuo das personagens centrais e que acaba por enfraquecê-las. Eurídice, em certa medida, funciona como um contraponto a Guida, ao mesmo tempo em que são complementares. Porém, fica uma sensação de que não importa o quanto ambas tentem conduzir suas próprias histórias: há um vórtice invisível que as empurra, em diferentes direções, rumo ao apagamento.
Os sucessivos eventos de sua história pessoal - o casamento, a gravidez, a manutenção da vida doméstica, conduzem a talentosa Eurídice Gusmão para um lugar cada vez mais distante da pretensão de frequentar um conservatório e de uma carreira como pianista clássica. Pouco a pouco. Ela vai sendo conduzida a uma existência que só é possível em papéis socialmente demarcados: esposa, mãe e dona de casa.
Guida, por sua vez, escolhe a possibilidade de vivenciar o amor e o sexo fora do casamento. Essa escolha a empurra para a margem, pois, ao se ver sozinha, grávida e sem apoio do companheiro, não encontra acolhimento na volta ao lar paterno e é expulsa, como castigo por ter rompido com o modelo esperado. O pai conta deliberadamente uma versão falsa da realidade para cada uma delas. Nessa condição, se desfaz para Guida o pertencimento, a possibilidade de ser acolhida.
Eurídice pensa ter perdido a irmã, que escreve e envia cartas que nunca chegam. A impossibilidade da manutenção das relações de afeto é cruel e brutal, porque se baseia sobretudo no equívoco produzido por aqueles que pretendem o controle dos corpos e dos afetos femininos.
Ao fim, fica o gosto amargo desse invisível ao qual as personagens vão sendo conduzidas, da possibilidade não concretizada, do abraço que poderia ter sido dado, do olhar que poderia ter se cruzado e que poderia ter mudado tudo.
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