Clara
Uma leitura de "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, a partir da resitência, da memória, do corpo e do direito à palavra.
Marcia Henrique do Nascimento
9/16/2026


Recentemente assisti “Aquarius” novamente. É um dos meus filmes preferidos do cineasta Kleber Mendonça Filho, ao lado do incrível “Bacurau”. A protagonista Clara, interpretada pela grandiosa Sônia Braga, me remete especialmente a duas palavras: resistência e memória.
Nos corpos femininos, há uma concepção cultural de que, ao ultrapassar o tempo da juventude, não há outro encontro possível, a não ser a decadência. Algo se perde para além do viço e do colágeno: o papel social sustentado no imperativo da capacidade de gestar e da juventude como elemento fundamental para que uma mulher possa ser considerada interessante e desejada.
Clara confronta essas definições, pois ela é a própria resistência – um corpo amputado pelo câncer de mama, que expressa erotismo e que vivencia a sexualidade. Dona desse corpo desprovido do atributo da juventude, não aceita o lugar de obediência, de docilidade, da gratidão. Não aceita o exílio na invisibilidade: ela ri, circula, dança, beija e transa com aquele que escolhe – inclusive, pagando pelo sexo.
Diante da reivindicação do direito à memória como lugar de expressão de sua história pessoal, surge um tipo de violência que se manifesta na dúvida que é sempre colocada diante de sua fala. “Você tem certeza?”, “pense melhor”, “você está exagerando”. A violência cresce numa escalada que se manifesta primeiramente disfarçada de cuidado, indo até a coação propriamente dita. Clara, porém, avança em sua empreitada de sustentar a palavra: ela precisa dizer “não” para ser sujeito de sua própria história.
Penso em Clara a partir da escuta das histéricas, marco estruturante da Psicanálise: a violência não se sustenta apenas no silenciamento, mas na palavra colocada sob a égide da dúvida, no questionamento violento que reside no “não foi nada disso, você está exagerando”.
É preciso dominar as colônias de cupins, símbolos da corrosão e da destruição, para que então se possa dizer: eu tenho o direito de dar sentido a minha história e ninguém mais, pois a mim ela pertence. Ela já domou um câncer e agora, os cupins postos sobre a mesa. Clara é a definição e a força de “Aquarius”.
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