Imagem de amanhecer no inverno, com um lago, uma árvore no centro e pássaros pousados nos galhos e montanhas com ne

A mulher dos três aniversários

As efemérides da vida nos dão marcas e datas, para além dos registros cronológicos.

CORPO & MEMÓRIATRAVESSIAS

Marcia Henrique do Nascimento

     Toco as folhas de “Doze contos peregrinos”, preciosidade ofertada em gotas por Gabriel Garcia Márquez, meu auto preferido. No final da introdução há uma frase curiosa: “sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. Como saber então qual deve ser a última?”. Meu caro e saudoso Gabo, nunca saberemos. Porque há sempre a incompletude. Isso é o que sempre há, enfim: o risco. Inclusive, o risco da impossibilidade de concluirmos uma nova versão, porque o inevitável da morte pode nos alcançar antes.

     Me dou conta de que naquele dia, há exatos dois anos, me encaminhava para uma cirurgia importante, na qual a bolsa de colostomia foi removida e meu intestino reconstruído, coroando um tratamento de sucesso. Pela complexidade da coisa toda e por ser uma daquelas efemérides que o tempo nos dá, essa data foi alçada à categoria de aniversário.

     A incursão do bisturi resultou em novas cicatrizes, que se somaram àquelas que ali já faziam morada, criando uma iconografia muito particular. Ali nasceram cortes simbólicos e seus afeitos, traduzidos e amplificados na vida: o luto que reside nos finais e nas partes do corpo que passaram por uma espécie de amputação, num sentido da morte e do morrer cujos significados ultrapassam o sentido literal da cessação da vida. Esse binômio vida/morte se entrelaça, se alterna e se mostra pela existência afora, sublinhando a ambiguidade própria da existência humana.

   A história singular do sujeito se constitui como uma literatura registrada no corpo - contos, crônicas e afins são ali contados, recontados, reescritos e encontram na pele um lugar perfeito para sua transcrição. As marcas do tempo são o repouso das palavras.

   A iminência da morte me lembrou que há um fim. Fez de mim uma outra coisa: não sei se melhor ou pior. “Vou mostrando como sou e vou sendo como posso”, como escreveu o poeta. Se por um lado há a impossibilidade de apagar o que foi escrito, de jogar a folha fora, por outro reside a possibilidade de assumir a autoria da própria vida e continuar a escrita, folha por folha, em continuidade aos versos que já haviam. É isso o que há.

   Quero adular minhas cicatrizes, tocá-las sem medo, levá-las para tomar sol em um dia de verão. Elas merecem, são a caneta-nanquim mais preciosa e rara com a qual fui presenteada naquele 22 de abril, com a qual redijo meus parágrafos todos. Sou a mulher dos três aniversários e de quantos mais vierem.

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