
A mulher dos três aniversários
As efemérides da vida nos dão marcas e datas, para além dos registros cronológicos.
CORPO & MEMÓRIATRAVESSIAS
6/15/20262 min ler


Toco as folhas de “Doze contos peregrinos”, preciosidade ofertada em gotas por Gabriel Garcia Márquez, meu auto preferido. No final da introdução há uma frase curiosa: “sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. Como saber então qual deve ser a última?”. Meu caro e saudoso Gabo, nunca saberemos. Porque há sempre a incompletude. Isso é o que sempre há, enfim: o risco. Inclusive, o risco da impossibilidade de concluirmos uma nova versão, porque o inevitável da morte pode nos alcançar antes.
Me dou conta de que naquele dia, há exatos dois anos, me encaminhava para uma cirurgia importante, na qual a bolsa de colostomia foi removida e meu intestino reconstruído, coroando um tratamento de sucesso. Pela complexidade da coisa toda e por ser uma daquelas efemérides que o tempo nos dá, essa data foi alçada à categoria de aniversário.
A incursão do bisturi resultou em novas cicatrizes, que se somaram àquelas que ali já faziam morada, criando uma iconografia muito particular. Ali nasceram cortes simbólicos e seus afeitos, traduzidos e amplificados na vida: o luto que reside nos finais e nas partes do corpo que passaram por uma espécie de amputação, num sentido da morte e do morrer cujos significados ultrapassam o sentido literal da cessação da vida. Esse binômio vida/morte se entrelaça, se alterna e se mostra pela existência afora, sublinhando a ambiguidade própria da existência humana.
A história singular do sujeito se constitui como uma literatura registrada no corpo - contos, crônicas e afins são ali contados, recontados, reescritos e encontram na pele um lugar perfeito para sua transcrição. As marcas do tempo são o repouso das palavras.
A iminência da morte me lembrou que há um fim. Fez de mim uma outra coisa: não sei se melhor ou pior. “Vou mostrando como sou e vou sendo como posso”, como escreveu o poeta. Se por um lado há a impossibilidade de apagar o que foi escrito, de jogar a folha fora, por outro reside a possibilidade de assumir a autoria da própria vida e continuar a escrita, folha por folha, em continuidade aos versos que já haviam. É isso o que há.
Quero adular minhas cicatrizes, tocá-las sem medo, levá-las para tomar sol em um dia de verão. Elas merecem, são a caneta-nanquim mais preciosa e rara com a qual fui presenteada naquele 22 de abril, com a qual redijo meus parágrafos todos. Sou a mulher dos três aniversários e de quantos mais vierem.
